Antes não existia isso. Prazo de validade, quem poderia dizer? As coisas duravam o tempo que serviam para algo. Qualquer um podia decifrar se elas ainda poderiam ser usadas ou não. Qualquer um podia decidir se coisas que não serviam mais como utilitárias, ainda poderiam ser mantidas pelo valor sentimental que tinham.
Quem aí tem uma lata de Pasta Jóia? Alguém aí guardou uma válvula de rádio ou TV? Alguém ainda tem uma caixa de costura forrada de cetim? Algum pijama de flanela? Um frasquinho de Binaca? Alguma moringa?
Quando as pessoas se casavam e montavam seus enxovais, esses teriam certamente objetos herdados, como a toalha de renda portuguesa herdada da bisavó, assim como a contribuição das mães e das próprias noivas. O saber passado a cada geração. Engenharia reversa e futurista!
A casa era montada pelo casal, famílias e amigos da maneira que o padre falava: até que a morte os separe. Assim, o Refrigerador, o Sofá, a Mesa de Jantar, as Cadeiras e Poltronas, o Rádio, o Fogão, o Filtro de Água, a Bateria (conjunto de panelas) durariam até que a morte separasse o casal: ou seja, para sempre.
Agora vemos a redução da duração dos casamentos, assim como o crescimento da obrigação do consumo continuado. A validade dos compromissos sociais foi reduzida. Da mesma forma, a indústria reduziu a validade das lâmpadas, dos eletrodomésticos, dos bens móveis e imóveis. Só que a nossa validade aumentou. Ninguém mais morre antes dos 40 sem que todo mundo comente: “Coitado, na flor da idade, tanto futuro pela frente!”
Nesse meio tempo os discos de vinil diminuiram a rotação necessária para a reprodução dos sons de 72 para 45 e 32 rotações por minuto, a rotatividade dos bens acelerou. E já nem todos sabem o que é um Long Play. Quem aí tem uma Radiola?
Tudo isso foi muito, muito rápido. Mas ainda estamos aqui para testemunhar. Isso gerou muita, muita pressa! Muito Lixo! A virtualização da existência.
Mais que isso, a destituição da capacidade de escolha que um dia tivemos.
O que está em jogo é um princípio fundamental que é a liberdade!
Com prazo de validade determinado pela sociedade de consumo, dizem que eu deveria viver a cada década, uma década a mais.
Que eu não deveria consumir minha pimenta condimentada depois de 3 meses;
que eu não preciso consultar artigos científicos com mais de 5 anos;
que eu só perco meu futuro; futuro esse que, se eu deixar,
vai obedecer um prazo de validade, que nada tem a ver com meu produto.
Validade não é valor. Validade pode ser circunstancial, mas o valor é intrinseco!