P i t i ? Ça n`existe pas !

Refletindo sobre a peça de Quinet sobre Charcot e Freud. Passando à linguagem, com Lacan.

O médico passa um objeto na planta do pé do bebê e se ele verter o pé, então ele tem o reflexo de Babinski.

Quando alguém sobre no salto, entra em cena: alguns dizem que está dando piti.

Outros assistem de maneira diferente.

Um perverso polimorfo

fala

histericamente:

Mamãe estou com medo!

E se curva e entra na cena e encena

algo que não é obsceno.

Talvez, subcênico.

Revela na cena citações sexuais na forma de sugestões.

Uma histeria, uma teatralização de:

algo que pula no ventre,

algo que impede a passagem do ar,

algo que a gente quer colocar pra fora,

algo que necessita colocar a falta na cena.

Algo que obcena o conflito

algo que pede a solução.

Um soluço,

uma quebra no rítmo.

Uma pausa

uma reversão.

Uma palavra revelada,

um sentido relevado.

Uma vida, no risco da morte.

mesmo que seja uma pequena morte,

“une petit mort,

une mort, pr`est-ce que subite.”

Uma sub-levação? Se é que isso existe.

Talvez, apenas uma revelação.

(Ou será que quis dizer apenas uma relevação?)

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Relêvo

Já não quero cavar,

nem acho necessário escalar.

Planícies, cavernas e planaltos,

em toda geografia,

a falha se instala.

Sou fruto do nada, no momento em que respiro;

um grito no escuro,

pura possibilidade de cascata,

essência de terra,

lama desde onde me vejo.

Aclives e declives se neutralizam

e revelam

a vegetação pura, a decídua e a perene,

sazonal ou apenas circunstancial.

Um broto, um resto de raiz, um grão de pólen congelado.

Qualquer possibilidade de vida.

Sempre trazem em si,

na vida,

a morte.

Ou campos para as matas por vir.

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Prazo de Validade

Antes não existia isso. Prazo de validade, quem poderia dizer? As coisas duravam o tempo que serviam para algo. Qualquer um podia decifrar se elas ainda poderiam ser usadas ou não. Qualquer um podia decidir se coisas que não serviam mais como utilitárias, ainda poderiam ser mantidas pelo valor sentimental que tinham.

Quem aí tem uma lata de Pasta Jóia? Alguém aí guardou uma válvula de rádio ou TV? Alguém ainda tem uma caixa de costura forrada de cetim? Algum pijama de flanela? Um frasquinho de Binaca? Alguma moringa?

Quando as pessoas se casavam e montavam seus enxovais, esses teriam certamente objetos herdados, como a toalha de renda portuguesa herdada da bisavó, assim como a contribuição das mães e das próprias noivas. O saber passado a cada geração. Engenharia reversa e futurista!

A casa era montada pelo casal, famílias e amigos da maneira que o padre falava: até que a morte os separe. Assim, o Refrigerador, o Sofá, a Mesa de Jantar, as Cadeiras e Poltronas, o Rádio, o Fogão, o Filtro de Água, a Bateria (conjunto de panelas) durariam até que a morte separasse o casal: ou seja, para sempre.

Agora vemos a redução da duração dos casamentos, assim como o crescimento da obrigação do consumo continuado. A validade dos compromissos sociais foi reduzida. Da mesma forma, a indústria reduziu a validade das lâmpadas, dos eletrodomésticos, dos bens móveis e imóveis. Só que a nossa validade aumentou. Ninguém mais morre antes dos 40 sem que todo mundo comente: “Coitado, na flor da idade, tanto futuro pela frente!”

Nesse meio tempo os discos de vinil diminuiram a rotação necessária para a reprodução dos sons de 72 para 45 e 32 rotações por minuto, a rotatividade dos bens acelerou. E já nem todos sabem o que é um Long Play. Quem aí tem uma Radiola?

Tudo isso foi muito, muito rápido. Mas ainda estamos aqui para testemunhar. Isso gerou muita, muita pressa! Muito Lixo! A virtualização da existência.

Mais que isso, a destituição da capacidade de escolha que um dia tivemos.

O que está em jogo é um princípio fundamental que é a liberdade!

Com prazo de validade determinado pela sociedade de consumo, dizem que eu deveria viver a cada década, uma década a mais.

Que eu não deveria consumir minha pimenta condimentada depois de 3 meses;

que eu não preciso consultar artigos científicos com mais de 5 anos;

que eu só perco meu futuro; futuro esse que, se eu deixar,

vai obedecer um prazo de validade, que nada tem a ver com meu produto.

Validade não é valor.  Validade pode ser circunstancial, mas o valor é intrinseco!

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Debaixo da Ponte

José Patricio AP, do Estadão http://topicos.estadao.com.br/fotos-sobre-vitimas-das-chuvas/embaixo-do-viaduto-na-av-general-olimpio-da-silveira-tem-lixo-acumulado,de83dba4-b8fd-486f-a8ca-265b5b9fbfef

Debaixo da ponte passa um rio.

Rio esse que pode ser raso, mero riacho;

ou profundo e abismal.

Debaixo da ponte mora um caminho

pode ser rápido, pode ser frio, pode ser lindo.

A ponte divide lado direito e esquerdo,

mas conecta o caminho que passa em cima

e marca o caminho de quem sempre passa.

Debaixo da ponte das cidades, moram aqueles que não têm lar.

Alí acendem seus foguinhos, montam seus abrigos com papelões,

distribuem cobertas, comidas, bebidas.

Se colocam em posições estratégicas,

uns dormem enquanto o outros vigiam.

Uma casa sem paredes, no meio da rua,

sem nome nem endereço, sem número.

Passagem que permanece.

Uns chegam outros vão.

Uns amigos, outros não.

Nos vãos das cidades,

lugares onde não mora ninguém.

Nos vãos, ninguém tem casa, emprego ou nacionalidade.

Quando, ainda, nomes.

Às vezes,

apenas codinomes.

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De quem é a casa própria?

QS 21, 13 de maio de 2012Alguém falou que o homem não é dono da própria casa.

Ouvida assim, frase solta, descontextualizada, acrescento:

Que casa é essa?

Casa sem dono e nem dona?

A casa nesse contexto,

não é de homem,  nem é de mulher.

Moradores que se inscrevem distintos no sexo

feminino

masculino.

Casa é uma só.

Moradia,

ninho,

origem,

refúgio,

espaço de amor e ousadia;

nova para cada criança,

esperança de melhoria.

Sem número, casa com paredes e teto,

janelas;

apenas promessas de vida.

Casa eterna,

sem endereço,

sem CEP,

sem tempo,

apenas acompanham cada momento.

Não são as das ruas em que permanecem,

endereços inscritos nas placas muitas vezes arrancadas,

distantes na memória.

São endereços que meus velhinhos tentam recuperar a cada caminhada.

Uma trajetória histórica, impossível de recuperar.

Ora, a cidade não para de mudar!

A casa da namorada foi derrubada para uma passarela passar;

na Avenida onde morava a Oriental,

agora se instala a cracolândia que logo se transforma em via verde:

- verde para os carros, perigo para os moradores.

O palacete dos amigos, nem reconheço mais em que altura do quarteirão se fundava.

Ah, mas isso não era para ser nostálgico.

Na verdade, não há casa, não há rua,

Há só história,

desde que haja alguém para poder contar.

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Bom pai, mãe exemplar!

Nossa sociedade considera um bom pai,

aquele que registra oficialmente o filho,

aquele que provê suas necessidades materias,

e que se mostra preocupado com o futuro do filho.

No entanto, exige da mãe:

Aquela que o gestou e o pariu,

aquela que calcula suas necessidades materias,

aquela que prevê suas necessidades materiais,

informa o pai caso ele querira saber,

sobre todos os ítens anteriores,

e ainda,

cuida e provê todas as demais necessidades óbvias mas não explicitadas (pela mãe):

amor, carinho, apoio, elogios, críticas;

nãos e talvezes;

sins e dependem;

e ainda,

se falham,

não prestam.

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Meio vida, meio lida!

UMBIGO

Eu já não vou suprir

aos outros

o que a mim

muito

profundamente

me fez falta.

Não é que não consiga acreditar

que tudo,

tudo,

guarda sempre uma falta.

Falta,

essa,

nesse lugar tão dolorido,

é onde eu quase me resguardo.

Depois do parto,

nesse lugar ido e não ido,

visto e não visto;

Quase um ponto cego,

desse, eu não falo;

disso eu não abro mais.

Nem falo, nem abro.

Lugar secreto:

Dos que quem entra não sai;

Dos quem sai, não entra jamais:

Jamais.

Quem vai, vai.

Ninguém volta, jamais.

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